quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O sumiço do Buchudo

 

Sexta-feira, véspera de Carnaval, partíamos rumo a Calçado. Eu, Pedro Mello e Augusto, um amigo de Niterói. O ano era 1980 e seguíamos viagem no possante Doginho Polara do Augusto. Os três já um tanto quanto, digamos...calibrados! Durante a viagem um litro de conhaque nos servia de combustível, fora algumas paradas para comprar cerveja. Tudo ia nos conformes quando, depois de Rio Bonito, Pedrinho, que estava sentado atrás (o carro só tinha duas portas), pede ao Augusto para parar no acostamento. Queria fazer xixi. 
Saíram os dois pelo lado do motorista e eu fiquei no carro, pois estava cochilando no banco do carona. Abri os olhos, vi Augusto urinando na parte da frente do carro e resolvi descer para fazer o mesmo. Augusto termina, vira-se para mim e diz: " Zé, cadê o Pedrinho?" Olho para um lado, para o outro e... nada do Buchudo!
Augusto se abaixa, olha por sob o carro e... nada! O Buchudo havia, como num passe de mágica, desaparecido.
Apavorados com o inaudito sumiço de nosso amigo começamos a gritar : Pedrinho!!! Pedro Mello !!! Buchudo!!!.... Nada! Silêncio total.... Continuamos chamando até que ouvimos um som gutural vindo do fundo do barranco : "Opa! Tô aqui!"
- Tá fazendo o quê aí?!- pergunta Augusto.
- "Caí, porra!!! Vou subir!"
Bem amigos, foi uma cena impagável! Nosso destrambelhado herói, já bastante calibrado, tentava subir o barranco- que devia ter uns dez metros de altura- agarrando-se no capim e no mato que o circundava. Mas, invariavelmente, quando se aproximava do topo, os tufos de capim ou mato se soltavam e lá ia nosso Buchudo rolando barranco abaixo novamente. Augusto já estava até pensando em chamar um reboque para tirar o pobre do Buchudo do buraco, quando, num esforço heroico, nosso desastrado Buchudo consegue retornar à estrada. Fora a sujeira e alguns arranhões de somenos importância, nada de mais grave aconteceu.
Depois de beber uma generosa dose de conhaque e se recompor do susto, Pedrinho, dedo em riste, vem em minha direção e, possesso, diz: "Você é um viado, devia é te dar umas porradas!!!"
- Ué, o que foi que eu fiz?!- indago espantado.
- Eu estava fazendo xixi encostado na porta do carona, você abriu a porra da porta sem olhar e me jogou lá embaixo. Olha o estado que estou, seu viado?! E a culpa é sua!
Antes do Buchudo terminar seu esporro, Augusto e eu começamos a rir... Rimos até a barriga doer! Curou até o porre! Em compensação levei tapa na nuca até chegarmos em Calçado.
Chegamos e fomos direto ao bar do Conrado, encontrar a turma. Quando Jilozinho viu o Pedrinho naquele estado deplorável, mandou: "Ô Pedro Mello, o bloco de sujos só sai amanhã e você já veio fantasiado de porco?! Ha! Ha! Ha!"
Só deu tempo do Jilozinho se abaixar, pois a garrafa de conhaque passou zunindo por sobre sua cabeça.
Foi um grande carnaval.
Zatonio Lahud

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Tonicão, meu pai

 Tonicão, meu pai

Zatonio Lahud

Dia dos Pais, minha mãe avisa a mim e meus irmãos que o pai viria mais cedo para jantarmos juntos em um restaurante. Era uma sexta-feira (no domingo os restaurantes ficam lotados), estranhei a notícia pois meu pai não era dado a comemorações do gênero, Achava puro comércio, comerciante que era.
Marcou para 20 horas.
Antonio Lahud, era seu nome de batismo, Tonicão para todos. Pesava cerca de 110 kg- quando magro, o normal era por volta de 120 kg, distribuídos com fartura por cerca de 1,83 m de altura.

Todo mundo pronto, esperando sua chegada e nada do velho aparecer. Deu nove horas, dez, onze, meia-noite e nada... nem sombra do pai.
- Sabia- diz a mãe, hoje é sexta-feira, deve estar bebendo com os amigos e esqueceu da gente, vou preparar alguma coisa para vocês comerem. Quando ele chegar vai se ver comigo, deixa ele!- exclamou e saiu furibunda, rumo à cozinha.

Todos de cara feia, com fome, sexta-feira perdida, quando entra o pai- já meio alto, uma sacola em umas das mãos, na outra um pequeno embrulho.
- Poxa, pai!- digo- começando a reclamar.
- Ninguém fala nada, eu explico, mas antes peguem uma cerveja para mim. Minha irmã foi lá, pegou a cerveja, o serviu e sentamos para ouvir a explicação:
- Demorei por causa disso aqui- disse- colocando o pequeno embrulho por sobre a mesa.Ganhei de presente dos meninos lá do posto- completou, já chorando.

O presente era uma carteira de dinheiro, daquelas feita em plástico barato, e ornada com o escudo do Flamengo. Os meninos eram dois garotinhos negros e muito pobres, que ficavam calibrando pneus no posto. Eram simpáticos e meu pai logo se tomou de amores pelos dois. Passou a dar almoço, comprou camisa do Flamengo, acompanhar os estudos... Essas coisas de pai.
- Mas por que está chorando?- indaguei.

- Vocês não vão entender! Quando estava saindo do posto, os meninos vieram e me deram a carteira de presente pelo dia dos pais. Compraram com o dinheirinho que ganham lá, calibrando pneus- disse ele, aos prantos.

- E aí?- perguntei.

- Me deram um abraço, um beijo e não aguentei! Comecei a chorar, botei os dois no carro e levei-os para jantar em um restaurante. Nunca tinham ido em um na vida deles! Comeram à vontade, tomaram sorvete, uma farra danada! Por fim, comprei seis galetos para cada um levar pra casa e comprei mais seis pra vocês: tão aí nessa sacola! Foi isso que aconteceu, agora podem zangar- terminou, lágrimas escorrendo por seu rosto.

Como que combinados, levantamos os três, eu, meu irmão e minha irmã e fomos dar um abraço no velho- todos com lágrimas nos olhos.

As lágrimas que escorrem em meu rosto agora não são só de tristeza e saudade por sua ausência, não pai, são antes lágrimas de alegria e orgulho por ter sido você o meu pai.

Saudade.
Obs.: Meu pai morreu em 19/12/1991

A casa da minha vó era feita só de amor

 A casa da minha vó Nedina (Enedina) era feita só de amor. Dos tijolos, à pintura, aos pisos. Na casa da vó Nedina moravam ela, meu vô Djalma, a Geni, e todo o amor do mundo.

A casa da vó Nedina, minha avó materna, era uma morada simples, uma casinha sem luxos, com um imenso quintal. Mas a casa da vó Nedina era envolta no mais puro amor. Em nenhum outro lugar deste mundo eu me senti tão amado e feliz.

A casa da vó Nedina não existe mais... Nem os que a habitavam... Mas a casa da vó Nedina vai existir enquanto meu coração bater a imensa saudade que tenho...da casa da vó Nedina!

❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O Mercado Financeiro tá sempre nervoso

 Já notaram que o tal Mercado Financeiro tá sempre nervoso? Também, na agiotagem em que vive nunca terá paz.

Zatonio Lahud